25 julho 2017

A rainha virtuosa e as duas irmãs

Primavera, desenho de Laura Costa (1910–1992) restaurado digitalmente por Jorge Silva


Um rei mancebo, que não tinha conversação de mulher alguma, requerido dos seus que se casasse, com desejo de achar na sua propria terra mulher para isso, refusava o casamento de muitas princezas forasteiras que lhe traziam. E queria que a mulher fosse de virtuosos costumes, claro sangue e boa vida, sem respeito a fazenda, pelo que por dote queria que tivesse estas tres cousas. E andando com esta imaginação passeando um dia per uma rua, sahiram certas mulheres moças todas fermosas a uma janella, e quando elrey passou ficavam fallando umas com outras, que elrey as ouviu, e não entendeu o que diziam, e por saber o que era chamou a si fidalgos que estiveram mais perto. Foi-lhe respondido:

— Senhor, uma disse, que se ella casasse com vossa alteza, se estrevia a fazer de suas mãos lavores de ouro e seda, tão ricos e tanto em vosso serviço, que se se avaliassem valessem tanto dinheiro que bastasse para gasto da mesa. E a outra respondeu que aquillo era muito, mas que se ella tivesse tal dita que casasse com elle, lhe faria camisas e outras cousas de que tivesse necessidade. E a outra respondeu: Ambas não sabeis o que dizeis, nem val todo vosso lavor tão estimado tanto que baste para vossa mantença; eu vos digo o que farei: Se chegasse a estado de casar eu com elrey, de seu ajuntamento lhe pariria dois filhos fermosos como o ouro e uma filha mais fermosa que a prata, o qual é prometter que as mulheres podem cumprir.

Elrey folgou de o ouvir, e notando as considerações em que ellas estavam propoz de casar com uma d'ellas. Visto isto mandou chamar mulheres de titulo, donas e senhoras, a quem deu conta, diante das quaes quiz fallar com estas donzellas para se determinar qual tomaria por mulher. E logo fez vir ante si a mais velha, que vista foi julgada por muito fermosa; elrey lhe preguntou:

— O que promettestes fazer estando á vossa janella se eu casasse comvosco, estrevei-vos a cumpril-o?

Ella se envergonhou, e mudada a côr disse:

— Farei em seu serviço tudo o que minhas forças bastarão.

Elrey a fez recolher e vir a segunda; porém nas perguntas aconteceu assi como á primeira, pelo que elrey a fez recolher e vir a menor, que claramente mostrou ser ella a mais fermosa de todas. Elrey lhe perguntou se se estrevia a cumprir o que promettera, e ella muito envergonhada respondeu:

— Senhor, si; com as condições que então disse.

Coube isto em tanta graça a elrey, que elle a recebeu por mulher e se fizeram grandes festas que duraram muito. E elrey trouxe para casa da rainha as duas irmãs que a acompanhassem, e ellas foram servidas e tratadas como irmãs da rainha sua mulher. Elrey fez vida mui amorosa com sua mulher, porém durou pouco tempo, porque com inveja que tinham do estado da rainha ambas de um conselho lhe buscavam todo o damno e como a poder empecer e tirar da alteza e honra em que estava. De sua industria, com falsas testemunhas n'aquelle parto e em outros dois adiante, pubricaram com falsidade que a Rainha parira monstros peçonhentos e não criatura, e os fizeram ventes aos que tinham razão de os vêr, de que o reino todo se alterou, e elrey aborreceu tanto a sua mulher, que lançando-a fóra de casa não lhe permittiu em todo o reino logar nenhum em que tivesse repouso, e as irmãs lhe buscavam tanto mal, que o faziam a quem a recolhia; de modo que a rainha veiu a ser a mais pobre e abatida mulher de serviço que em seu tempo houve na terra, porém permanecendo em toda limpeza se fingiu forasteira e por mulher de serviço a recolheram em um mosteiro de freiras. As irmãs procuravam illicitamente de vêr se podiam agradar a elrey, o qual dissimulando e apartando-se da conversação d'ellas fazia que as não entendia, e quando se achava só dizia mal da fortuna que lhe apartava da sua presença a coisa do mundo que elle mais amava, e para recreação do desgosto que trazia comsigo não tinha outra consolação senão ir muitas vezes em um barco pelo mar ao longo da terra por esparecer. Algumas vezes pescava e outras ia á caça ao longo de algumas ribeiras. E costumando isto, aconteceu que um dia indo ao longo de uma ribeira acima, viu á borda de agua uma casa feita de novo. E chegando perto, desejando saber cuja era, viu a uma janella um menino que seria de sete annos, de muito fermoso rosto, pobremente vestido, perguntou-lhe:

— Filho, quem móra n'esta casa?

E o menino como muito criança, disse:

— Senhor, mora meu pae, que não está aqui; se vossa mercê quer que chame minha mãe, virá logo.

E n'este tempo outro menino de menos edade dizia dentro:

— Senhora mãe, senhora mãe, aqui está um fidalgo á nossa porta.

E a esta conjuncção sahiu uma mulher á porta da rua com uma menina pela mão, pequenina, e disse:

— Senhor, que manda vossa mercê?

Elrey, que tinha pregados os olhos e o coração nos meninos que via, tendo no sentido que os filhos da rainha sua mulher já houveram de ser d'aquelle tamanho, lhe disse:

— Vejo estas casas novas ao longo d'esta ribeira, e estes meninos tão fermosos, folgaria de saber cujo isto é?

Ella respondeu:

— Senhor, as casas e os meninos são meus e de meu marido.

— Dona, as casas creio que serão; mas os meninos, sois já de dias, que parece não deveis de ter tão pequenos filhos. Dona honrada, sou Elrey, e quero saber cujas são estas casas e estes meninos.

Ella se humilhou muito e com os giolhos no chão, que ao que perguntava soubesse, que as casas eram suas, mas que os meninos ella não sabia cujos filhos eram mais que trazer-lh'os seu marido, que aquella manhã fôra ao mar e viria á noite. Então disse Elrey:

— Pois dizei-lhe que amanhã ao jantar vá ter commigo ao paço, e leve estas crianças para me dizer o que sabe d'ellas, que o hei-de esperar sobre mesa.

E ella assi lh'o prometteu. Ido elrey, como se metteu ao longo da ribeira, já ia acompanhado de muitos dos seus e iam buscando se descobririam alguma caça; sua alteza viu umas lapas que parecia que outro tempo foram pedreira e de dentro sahiu uma mulher, que trazia os cabellos muito grandes, soltos e pretos, e os vestidos muito rotos. E assi como ella sahiu viu a elrey e com muita diligencia se tornou a metter para dentro para se esconder; mas como foi vista, elrey a seguiu e asinha a alcançou:

— Quem sois? e porque estaes n'este ermo?

Ella que conheceu mui bem que era elrey o que lhe fallava, lhe disse:

— Para que quer saber vossa alteza a vida de uma mulher desventurada, que em penitencia de seus peccados a faz d'esta maneira, que agora vê?

Elrey, que viu que era conhecido d'ella, e que por muito que lhe rogou não quiz dizer quem era, desejoso de o saber a fez tomar por dois homens, lhe mandou dar um a capa de agua sua, e um sombreiro, que se cobrisse e a puzessem em ancas de uma mula, e que um escudeiro com muito resguardo a levasse ao paço, e sem que fosse vista de outra pessoa alguma a tivesse até que elle chegasse, o qual se fez assi. Ao outro dia, chegadas as horas de recolher á mesa, trouxeram aquella mulher por mandado de elrey, que de novo lhe perguntou quem era e porque andava d'aquella sorte; e ella cheia de lagrimas e soluços disse:

— Estando eu n'esta casa em muito viço, favorecida da rainha e de suas irmãs, ellas me apartaram um dia, e me disseram que sua alteza estava de parto, quando a primeira vez pariu, e que ellas tinham determinado lançar um grande sapo com as páreas quando deliberasse, para dizer que aquillo parira a rainha, e que eu com diligencia tomasse a criança, que ellas m'a dariam envolta em panos, que fosse lançar no mar, e que isto faziam, porque não acertasse de parir filhos como o promettera. Tomei a criança acabada de nacer, que era um filho, e logo em minha presença tiraram um grande sapo que tinham em uma panella, e o embrulharam com as páreas; e isto feito gritaram fingindo que isto era medo do sapo e lançaram a fugir e juntamente com ellas a parteira. E com esta revolta tive tempo para me sahir do paço levando a criança commigo, e quando me vi na rua encaminhei para o mar, e fui ter junto áquelle logar donde vossa alteza me achou; desembrulhei a criança, vi que era varão, e n'isto vi vir um velho pescador; deixei a criança embrulhada nos fatos como vinha e lancei a correr fugindo. Elle como me viu deixar aquelle vulto, foi vêr o que era, e como lh'o vi erguer do chão e leval-o para sua casa, tornei-me ao paço com o rosto ledo, e disse ás senhoras que o lançára no mar. Foram contentes do que eu disse que fizera, e d'esta maneira aconteceu outra vez no segundo parto, quando disseram que a Rainha parira uma cobra; fugindo todas, fugi eu tambem e levei o infante ao proprio logar donde levára o outro. Antes de outro anno, ou n'elle, a rainha veiu a parir outra vez; chegada a hora me deram outra criança, e fingiram como d'antes aver a rainha parido uma toupeira, que tinham para isto prestes; e no espanto e alvoroço d'isto, quando fugiram fugi eu e fui ter á borda da agua no logar donde deixei seus irmãos, e vi que levava uma menina. Esmoreci, e quando acordei achei o pescador commigo, e me dizia:

— Descoberta ha-de ser esta cousa a elrey.

E porque me temi que me buscasse no paço não quiz tornar a elle, e metti-me n'aquellas lapas, em que averá bem quatro annos que estou.

Elrey acabando de ouvir isto, ficou espantado das treições que as irmãs fizeram contra sua irmã, as quaes ambas foram chamadas e viram a donzella e entenderam tudo o que ella tinha dito, e como tudo era verdade não tiveram bocca com que o negar, e como que queriam faltar uma com a outra se chegaram a uma janella d'aquella sala que ia ter ao mar, e abraçando-se ambas se lançaram em baixo com tanta presteza que se lhe não pôde estorvar. Ainda a gente do paço não estava de todo socegada d'este alvoroço quando entrou pela porta o velho pescador e sua mulher; traziam no collo dois Infantes e a Infanta. E chegando ante elrey o velho se adiantou de sua companhia, e disse alto que todos o ouviram:

— Disseram que hontem passára vossa alteza pela porta da casa em que vivo, e vendo estes meninos perguntou cujos filhos eram, e porque minha mulher lhe não deu razão sufficiente, vossa alteza mandou que viesse eu aqui e os trouxesse, que queria saber cujos filhos eram tam fermosos meninos; pelo que vim e os trago commigo.

Ouvindo isto, e visto o que a donzella dissera todos os circumstantes a uma voz diziam que todos aquelles trez eram filhos delrey; e as donas todas da casa viram e conheceram todo o fato em que os infantes foram envoltos. Logo elrey mandou por todo o reino em busca da rainha, e que se publicassem as novas do achamento dos trez filhos infantes, e da treiçam das irmãs da rainha e sua morte. E foi ter esta nova ao Mosteiro onde a rainha estava; todos viam n'ella mais alegria, que em nenhuma outra pessoa, e foi tanta que suspeitaram o que era, e a Rainha vendo que já não era tempo de se encobrir, lhes manifestou e declarou a verdade.

Elrey mandou chamar toda a fidalguia da côrte e muitos senhores, que trouxessem suas mulheres, e com todos elles e ellas em grande festa levou a Rainha d'alli para o paço com tanto alvoroço de alegria como se então se casaram de novo.

Gonçalo Fernandes Trancoso (1520–1596), Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (1575), Parte II, conto VII

22 julho 2017

Mensagem de paz


Uma borboleta pousa na espingarda de um militar português algures no Planalto dos Macondes, Cabo Delgado, Moçambique, ano 1972 (Foto: Manuel Correia de Bastos)

20 julho 2017

Diego el Cigala


Eu sei que vou te amar, de António Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, por Diego el Cigala

Diego el Cigala, de seu nome próprio Diego Ramón Jiménez Salazar, é um cantor e autor de flamenco, cigano espanhol por nascimento e dominicano por naturalização. Qualquer que seja o género musical que interprete, é sempre flamenco o que ele canta. E como canta! Escutêmo-lo um pouco mais.


Amar y Vivir, por Diego el Cigala

Historia de un Amor, por Diego el Cigala

Soledad, por Diego el Cigala

Te Quiero, Te Quiero, por Diego el Cigala e Rosario Flores (filha de Lola Flores)

14 julho 2017

«O Dia em que Comandei a Companhia»




O texto que hoje pretendo partilhar com os meus visitantes é verdadeiramente arrepiante. É um texto de vida, de morte e, sobretudo, de abnegação para lá do que é possível imaginar. Por isso o partilho e recomendo. Porque os heróis existem.

Não faltam por aí antigos combatentes da Guerra Colonial que arrogantemente se julgam heróis, ou porque fizeram parte desta ou daquela tropa de elite, ou porque arriscaram e sofreram, ou porque fizeram e aconteceram. Tudo isso pode ser verdade, ou não, mas os verdadeiros heróis da Guerra Colonial, os autênticos Heróis com H maiúsculo, foram os cabos auxiliares enfermeiros. Exatamente, os humildes cabos auxiliares enfermeiros, de quem ninguém fala. O que é terrivelmente injusto. Apesar de terem recebido uma preparação escassíssima para as medonhas responsabilidades que deveriam enfrentar nas frentes de combate, os auxiliares enfermeiros ultrapassaram(-se) para lá de tudo o que se possa imaginar. Eles foram enfermeiros, foram médicos, foram psicólogos, foram cirurgiões, foram tudo o que as circunstâncias da guerra exigiram deles, mesmo debaixo das mais atrozes e perigosas condições. Este texto, cuja leitura proponho neste momento, demonstra-o de forma extremamente eloquente. O cabo Costa, que é um dos heróis deste episódio, não foi exceção, foi a regra.

Manuel Correia de Bastos, o autor deste texto, é o associado n.º 1312 da ADFA, Associação dos Deficientes das Forças Armadas. Foi gravemente ferido por uma mina antipessoal, que lhe roubou uma perna, no dia 4 de junho de 1972, em Mueda, Cabo Delgado, norte de Moçambique. Era furriel miliciano da Companhia de Artilharia 3503, do Batalhão de Artilharia 3876, e foi um dos 16 feridos graves que a sua companhia sofreu ao longo de dois anos de comissão militar. Além destes, a mesma companhia sofreu ainda mais 36 feridos, 5 mortos e 1 desaparecido.

Tanto quanto sei, Manuel Correia de Bastos publicou apenas um livro, intitulado "Cacimbados". Não o li, porque não está disponível no mercado, em resultado da falência da editora. Não sei, portanto, se este episódio faz parte do livro ou não. Seja como for, o seu autor disponibilizou-o no jornal Elo da ADFA, assim como no blog da sua companhia, onde também pode ser lido.

Feita uma breve apresentação do seu autor, passo então a indicar os dois links onde o notável texto pode ser lido:

Pág. 12 da edição de outubro de 2008 do jornal Elo, da Associação dos Deficientes das Forças Armadas;

Post de 15 de outubro de 2008 do blog Histórias da CART 3503.

10 julho 2017

Talento


Um joik (tipo de canto tradicional Sami) cantado por Jon Henrik Fjällgren perante as câmaras da televisão sueca, de homenagem ao seu melhor amigo Daniel, que morreu de diabetes

Pode um indígena da Colômbia tornar-se indígena do norte da Escandinávia? Se ele pertencer a um povo indígena de uma parte do mundo, com características genéticas e culturais bem definidas, não pode passar a pertencer a um outro povo indígena de outra parte do mundo, com características genéticas e culturais muito diferentes das suas, ou pode? Será que um índio sul-americano pode tornar-se um Sami, criador de renas nas paisagens geladas da Lapónia e da Península de Kola? Afinal, o que é que define que alguém é indígena de tal ou tal parte do mundo: são os genes, a cor da pele, o formato do nariz, a lisura ou o encrespado dos cabelos, ou é o sentimento, a cultura, a alma?

Jon Henrik Fjällgren é um jovem nascido na Colômbia, no seio de uma comunidade de índios, que foi colocado num orfanato na sequência da morte dos seus progenitores biológicos. Adotado por uma família de nacionalidade sueca, mas pertencente ao povo Sami, Jon Henrik Fjällgren foi levado para a Europa, onde cresceu como se fosse, ele também, um membro do povo Sami. Tornou-se pastor de renas, uma das ocupações tradicionais dos Sami, antigamente chamados Lapões.

Como se tudo isto não bastasse, Jon Henrik Fjällgren tornou-se o rosto e, sobretudo, a voz do povo Sami na Suécia, quando ganhou em 2014 o concurso de talentos chamado Talang Sverige ou, como se chamaria em inglês, Sweden's Got Talent.

08 julho 2017

Máscara Pwo


Máscara Pwo, de um artista anónimo do povo Quioco ou Cokwe, séc. XIX, Angola (Foto:The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, Estados Unidos da América)

Conhecida como Pwo (mulher) num passado em que o modelo feminino perfeito era a mulher madura, experiente e sabedora, mas adaptando-se com o tempo aos novos padrões e valores sociais, esta máscara é actualmente designada por Mwana Pwo (jovem mulher ou rapariga). Continua, no entanto, a representar o ancestral feminino que regressa à terra com o poder de validar ou criticar as instituições da sociedade tradicional cokwe.

Efectivamente, entre os Tucokwe, à semelhança do que acontece na grande maioria dos povos de origem bantu, as máscaras constituem objecto de evocação e realização de acções dos antepassados entre os homens, estando o seu surgimento associado a motivações de ordem sócio-religiosa, mais concretamente, ao culto dos ancestrais.

Para este grupo etno-linguístico, há muito fixado na zona nordeste de Angola (mas também nos territórios da Zâmbia e da R. D. Congo), a máscara não se reduz, portanto, a um simples instrumento material e mascarar-se não significa uma mera operação de modificação ou disfarce. O termo mukixi (pl. akixi) com que se designa o mascarado é simultaneamente utilizado para referir o espírito do antepassado representado por cada máscara.

Mas Mwana Pwo é uma máscara viva; integrada na comunidade, faz-se presente em ocasiões especiais para guiar, educar e proteger os seus membros.

Associada às cerimónias rituais de iniciação masculina ou mukanda, onde desempenha um papel preponderante, a única máscara feminina da grande hierarquia das máscaras cokwe, é um dos intermediários entre os jovens iniciados ou tundanji (sing. kandanji) e as suas mães, das quais são separados por longos períodos. Na aldeia, Mwana Pwo apresenta-se dançando no terreiro, para o entretenimento de toda a comunidade que celebra esta passagem.

Depositários da memória colectiva, aqueles mascarados que vivem da profissão de bailarinos, realizam exibições itinerantes pelas povoações vizinhas, ajudando a contar a história do seu povo. Fazendo parte do grupo das máscaras de dança — Akixi a kuhangana —, durante a sua "actuação" Mwana Pwo dá vida às noções espirituais que significa.

O seu rosto, sabiamente talhado por um mestre, dentro dos padrões estéticos da escultura cokwe, é sempre a revisitação de um rosto de mulher por ele eleito dada a beleza dos seus traços. Nesse rosto, o escultor inscreve, em complexas representações, simbolismos e significados ligados à fecundidade, ao género e ao cosmos — no nariz o traço kangongo, sob os olhos as lágrimas ou masoxi, nas faces as marcas circulares lumba, no queixo as tatuagens mipila e na testa o motivo cruciforme que a distingue, ou cingelyengelye.

Dançando de forma peculiar onde devem imperar a contenção e a elegância, executa pequenos movimentos, enfatizados na zona da cintura pelo uso do "cinto" característico da dança ciyandamuyia wa ciyanda. A Mwana Pwo cabe perpetuar as qualidades femininas consideradas pelos Tucokwe; a fertilidade, a beleza, a força da juventude e a delicadeza nas atitudes.

A sua dança — afastada dos modelos convencionais do espectáculo teatral onde a coreografia é pré-estabelecida e as performances são ensaiadas — constitui uma forma de expressão e comunicação em renovação permanente que conjuga elementos infraestruturais da vida social do grupo.

Por oposição, os passos são rigorosamente aprendidos e definidos para esta máscara. Um código privado inclui tudo o que se produz no domínio da improvisação o que, correspondendo a momentos de criatividade pessoal do bailarino, torna esta gestualidade inacessível ou difícil de interpretar por indivíduos de outros grupos culturais. Mas as mulheres cokwe sabem bem que leitura fazer de cada uma das alternativas de interpretação daquele gestual.

As técnicas e os segredos inerentes às danças de mascarados estão contidos numa das áreas de conhecimento reveladas na mukanda pelo que, este saber é absolutamente vedado às mulheres, aspecto que nos poderia remeter para a problemática da organização de género nesta sociedade.

Assim se explica que dentro da máscara — cujo uso é interdito ao sexo feminino — um homem iniciado de estatuto secreto e identidade desconhecida, lhe dê a "alma" e a forma humana que a torna inteligível para o mundo terrestre.

Este desempenho masculino é, no entanto, aceite pelas mulheres cokwe que o reconhecem como uma homenagem ao seu papel primordial dentro da sociedade. Contudo, a actuação desses Akixi não as deve desapontar, o que pressupõe a obrigatoriedade de uma representação do modelo feminino correspondente às suas expectativas. Deste modo, é frequente verem-se estes bailarinos profissionais dançar junto das mulheres para com elas aprenderem os movimentos exactos embora, numa relação recíproca, essa máscara deva ser para as próprias mulheres o exemplo das regras e formas de comportamento social a seguir. Ao contrário do que acontece relativamente à quase totalidade dos mascarados, que as afugentam, as mulheres podem, portanto, aproximar-se e interagir com o Mukixi wa Mwana Pwo.

Apesar dos grandes desequilíbrios provocados na sociedade cokwe, pelo contexto de guerra vivido em Angola, os mascarados continuam a fazer-se presentes agora, em tempos de paz, para partilhar a sabedoria ancestral com as novas gerações.

Continuando a formar parte integral da visão que os Tucokwe têm do mundo, Mwana Pwo integra, na sua forma e na sua essência, o grupo dos Akixi que contribuem para a perpetuação das diligências sociais e culturais de transmissão de um conhecimento colectivo e para a negociação das grandes preocupações e aspirações humanas.

Validada apenas quando alguém a usa — pois só o binómio máscara-bailarino é portador dessas forças "sobrehumanas" —, Mwana Pwo pode ser apreciada numa perspectiva de riqueza e complexidade artísticas, mas sem nunca as dissociar da sua capacidade para articular novas ideias, normas e valores, ou seja, de intervir (modificar) na vida moral e espiritual dos indivíduos, enriquecendo, com o seu significado simbólico, o o curso da sua existência quotidiana.

Através dela se celebra a esposa, a irmã, a mãe.
Através dela se declara a autoridade da mulher na sociedade cokwe, talvez ainda numa remota homenagem à rainha Lweji.


Maio de 2004

Ana Clara Guerra Marques, coreógrafa angolana; fundadora e diretora artística da Companhia de Dança Contemporânea de Angola, in Mwana Pwo ou a representação feminina na hierarquia das máscaras Cokwe

NOTA — Na palavra Cokwe e suas derivadas, a letra c pronuncia-se aproximadamente tch: Tchokwe.

01 julho 2017

«O nosso grande capital são as pessoas»

O Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Dr. Manuel Sobrinho Simões, durante a sua intervenção oficial no dia 10 de junho de 2017, na cidade do Porto (Foto: Presidência da República Portuguesa)


(...) É errado pensar numa raça portuguesa, como numa raça espanhola, francesa, ou outra.

Mas, se não há uma raça portuguesa, há um Povo com características genético-culturais sui generis (...)

Não há genes portugueses. O que os portugueses têm é uma mistura notável de genes com as mais variadas origens. Se há algo único, ou quase único, em nós, é essa mistura genética.

(...) Pelas leis da genética populacional deveríamos ser mais homogéneos, mais monótonos em termos genéticos que os outros povos europeus. E não somos.

Pelo contrário. Somos de uma extraordinária diversidade genética porque incorporámos, ao longo de séculos, judeus e berberes vindos de Espanha e do norte de África, porque nos misturámos com árabes, porque tivemos escravatura de povos da África subsariana no nosso país e nas colónias, com uma grande expressão e durante centenas de anos.

E também porque fomos através do mar para tudo quanto era sítio na África, na Ásia e na América do Sul e de lá voltámos com filhos e, sobretudo, com filhas.

É assim que se compreende que a população portuguesa tenha grandes percentagens de diversas linhagens genéticas, sobretudo de origem materna. Há diferenças regionais mas o que impressiona é a consistência com que temos muito mais mistura de genes que os nossos vizinhos.

Somos tão diferentes neste aspecto que há bastantes mais linhagens ameríndias, africanas e judias no Minho do que na Galiza.(...)

Estas são apenas algumas das palavras proferidas pelo notável cientista português Manuel Sobrinho Simões, durante o seu discurso proferido no dia 10 de junho de 2017, na cidade do Porto, na sua qualidade de Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O discurso completo do Prof. Sobrinho Simões foi como segue.


Foi com muito gosto embora, valha a verdade, não sem algum receio que aceitei o convite do Senhor Presidente da República para presidir à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O gosto é ampliado pelo facto de este ano as Comemorações se realizarem no Porto e se estenderem ao Rio de Janeiro e a S. Paulo. Sou orgulhosamente portuense e muito apegado ao Brasil e às suas gentes.

Não resistindo à utilização de expressões consagradas, é notável como a decisão do Senhor Presidente da República se adapta a esta localização magnífica, na “Ocidental praia lusitana” “De onde houve nome Portugal”, a imaginar o Brasil lá ao longe.

Neste dia comemoramos os Portugueses estejam onde estiverem. Comemoramos um coletivo num dia que já foi o Dia da Raça. Felizmente abandonou-se essa designação. É errado pensar numa raça portuguesa, como numa raça espanhola, francesa, ou outra.

Mas, se não há uma raça portuguesa, há um Povo com características genético-culturais sui generis que somos nós, os Portugueses.

Não estou a sugerir que há genes portugueses. Não há. Existem doenças transmitidas por genes alterados que surgiram em portugueses e, depois, fruto da nossa diáspora, se espalharam pelo mundo.

Foi o que aconteceu com a doença dos pezinhos, identificada por Corino de Andrade, que é possível encontrar hoje no Japão, na Irlanda e em outros locais mais ou menos recônditos da Terra. A doença chegou a esses países no século XVI através de variadíssimos tipos de portugueses errantes, fossem jesuítas ou marinheiros da Póvoa de Varzim recrutados para a Armada Invencível de Filipe II de Espanha e naufragados perto das ilhas britânicas.

Foi o que aconteceu, também, com a doença de Machado Joseph, conhecida popularmente por doença do tropeção, iniciada na ilha das Flores, nos Açores e “levada” por emigrantes nos séculos XIX e XX para a América do Norte e o Brasil.

E, mais recentemente, com uma alteração genética causadora de cancro da mama hereditário que tendo surgido numa família portuguesa encontramos hoje não só em Portugal como também em França e noutros países.

É interessantíssimo verificar como a dispersão destas doenças transmitidas por alterações genéticas de compatriotas reproduzem os padrões das (e)migrações portuguesas.

Mas não são estes os genes a que me referia quando falei em características genéticas portuguesas. Estes não são genes portugueses – são genes humanos alterados que, por azar, ocorreram em portugueses e, depois, o nosso comportamento migrante espalhou pelo mundo.

Não há genes portugueses. O que os portugueses têm é uma mistura notável de genes com as mais variadas origens. Se há algo único, ou quase único, em nós, é essa mistura genética. E nada o faria prever se nos lembrarmos que o homem moderno, vindo da África, depois de ter chegado ao Médio Oriente se dirigiu à Oceânia e à Ásia e só mais tarde veio para Ocidente.

A Europa é uma península da Ásia. A Ibéria é a península na ponta da Europa. Nós, Portugal e Galiza, estamos no extremo mais ocidental dessa península, a ponto de haver uma Finisterra, lá em cima que, apesar do nome, não é tão ocidental como o nosso Cabo da Roca.

Pelas leis da genética populacional deveríamos ser mais homogéneos, mais monótonos em termos genéticos que os outros povos europeus. E não somos.

Pelo contrário. Somos de uma extraordinária diversidade genética porque incorporámos, ao longo de séculos, judeus e berberes vindos de Espanha e do norte de África, porque nos misturámos com árabes, porque tivemos escravatura de povos da África subsariana no nosso país e nas colónias, com uma grande expressão e durante centenas de anos.

E também porque fomos através do mar para tudo quanto era sítio na África, na Ásia e na América do Sul e de lá voltámos com filhos e, sobretudo, com filhas.

É assim que se compreende que a população portuguesa tenha grandes percentagens de diversas linhagens genéticas, sobretudo de origem materna. Há diferenças regionais mas o que impressiona é a consistência com que temos muito mais mistura de genes que os nossos vizinhos.

Somos tão diferentes neste aspecto que há bastantes mais linhagens ameríndias, africanas e judias no Minho do que na Galiza. Eu, por exemplo, e perdoe-se-me a personalização, tenho cerca de oito por cento de linhagens ameríndias e três por cento de linhagens africanas.

E o mesmo se passa em relação aos judeus sefarditas cuja influência em Portugal foi enorme. No Hospital de D. Lopo que precedeu o Hospital de Santo António, aqui no Porto, havia um quadro composto por um médico e um cirurgião (sorgião) que eram obrigatoriamente cristãos velhos e tomavam conta dos doentes. Não deveriam ser os mais competentes pois o primeiro Regulamento do hospital, publicado a 2 de Janeiro de 1593, estipula que “o Provedor chamará os outros médicos da cidade para juntas, ainda que não sejam cristãos velhos, quando surgir algum caso grave”. A necessidade fazia esquecer os preconceitos e, quem sabe, terá sido esta uma das razões para a excelência da medicina no Porto.

O ponto que estou a procurar salientar é que a incorporação de genes foi acompanhada pela incorporação das respetivas culturas, criando uma sociedade de gentes muito variadas, de comportamento bastante plástico, tolerante em termos religiosos, avessa aos extremismos pseudo-identitários que irrompem um pouco por todo o lado.

Uma sociedade que deveria entender, como poucas, o problema dos refugiados. Deveríamos ser capazes de integrar gentes que se vêem obrigadas a fugir de casa, comportando-nos como uma comunidade inclusiva e solidária. Uma comunidade que tem de perceber o valor sociocultural, económico e até demográfico da integração dos migrantes. Somos uma das sociedades com menos filhos do mundo.

A variedade genético-cultural que tenho vindo a acentuar encontrou um terreno propício para o seu desenvolvimento nos montes e vales de grande parte do território português, onde coexistem elementos mediterrânicos e atlânticos, na síntese de Orlando Ribeiro.

Tudo isto, mais a localização periférica, a história, a geografia, o clima, a religião… criou uma sociedade de elevadíssimo contexto, caracterizada muito mais pela importância dos laços de sangue – somos todos parentes uns dos outros – do que de propriedade. Continuamos, infelizmente, demasiado individualistas e ainda não somos uma sociedade de contrato. Lá chegaremos, espero.

Apesar de termos hoje ainda meio milhão de portugueses que se exprimem mal em termos de escrita – muitos deles riquíssimos de saber – apesar disso, dizia, temos dado passos de gigante na educação, na saúde, na ciência e na inovação.

Vale a pena lembrar que por ocasião do 25 de Abril tínhamos níveis de analfabetismo semelhantes aos da Suécia 100 anos antes. E que ainda há pouco tempo os velhos de Vale de Papas, na serra de Montemuro, usavam o verbo sentir como sinónimo de saber. “O senhor sabe como é o mar? Não senhor, isso eu não sinto…”.

Repito, o nosso grande capital são as pessoas. Em Lisboa, como na Serra de Montemuro… Avançámos muito na saúde, na ciência, na inovação, na educação, e em alguns destes domínios somos já competitivos a nível internacional.

Nos últimos tempos trabalhei com professores e alunos das escolas de Arouca, Serra da Arga e Lima, Famalicão e Monserrate, assim como do Politécnico de Bragança e da Universidade da Beira Interior e, em todos estes sítios, encontrei qualidade e vontade excecionais.

Foi propositadamente que citei instituições ditas periféricas, do interior do País. Sem pôr em causa a necessidade de apostarmos, a sério, na descentralização, penso que Portugal é demasiado pequeno para tolerar bairrismos de qualquer tipo.

Mesmo aqueles bairrismos que se escoram na ideia de que “o Porto é uma nação”. Não é, apesar de ser verdade que o Norte e o Porto continuam a ser um motor fundamental para o desenvolvimento do País.

A este propósito quero deixar uma nota de saudade. Tivemos este ano a perda de algumas personalidades ímpares, entre as quais Mário Soares, Daniel Serrão, Miguel Veiga, João Lobo Antunes. Todos portugueses de eleição e todos, também, quando não de solo ou de sangue, portuenses de coração.

E volto assim às pessoas. Precisamos de apostar nas pessoas e associar essa aposta à centralidade do trabalho e à sua dignificação.

E temos de ser exemplares, de cima para baixo, na organização social e na seleção das lideranças. O privilégio tem de ser acompanhado de responsabilidade.

Precisamos de vencer a fragmentação do minifúndio através de políticas que estimulem parcerias público-públicas e reforcem as instituições. Portugal precisa, cada vez mais, de instituições fortes como são as Forças Armadas e a Igreja. Instituições fortes que criem oportunidades, recompensem o mérito e potenciem a capacidade do saber fazer.

Temos também de continuar a apostar na educação, a todos os níveis, usando a sabedoria chinesa que diz que “quem quer ter colheitas no ano seguinte, semeia; quem quer resultados a dez anos, planta árvores; mas aqueles que apostam mesmo no futuro, a cem ou mil anos, o que fazem é ensinar, educar, formar”.

Graças a nós e às nossas circunstâncias, temos todos os ingredientes, dos genéticos e ambientais aos socioculturais e tecnológicos, para aproveitar, pela positiva, os tempos difíceis que se vivem na Europa e no mundo.

Os nossos netos não nos perdoarão se desperdiçarmos a oportunidade.

Usando a fórmula de João Bénard da Costa, já glosada por outros, “Muito obrigado ao Senhor Presidente da República por me ter convidado e a V. Exas. por me terem escutado”.

27 junho 2017

Caro nome

A brincar. Ária Gualtier Maldè!... Caro nome, da ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi (1813–1901), numa paródia protagonizada pela cantora soprano coloratura norte-americana Marilyn Mulvey e o pianista e comediante dinamarquês Victor Borge (1909–2000)


A sério. Ária Gualtier Maldè!... Caro nome, da ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi (1813–1901), numa interpretação da cantora soprano coloratura australiana Joan Sutherland (1926–2010) e a Orquestra do Covent Garden, de Londres, dirigida por Francesco Molinari-Pradelli (1911–1996)

24 junho 2017

São João Batista no Deserto


São João Batista no Deserto, c. 1515, óleo sobre madeira de um pintor anónimo habitualmente designado Mestre da Lourinhã. Santa Casa da Misericórdia da Lourinhã

20 junho 2017


Porque tudo já
foi dito, destravo a língua
no vazio, aos gritos!

Sétimo e último haicai de Sete Haicais — um Poema, de Carlos Saldanha Legendre, poeta brasileiro


Imagem do terrível incêndio iniciado na noite de sábado, 17 de junho de 2017, em Pedrógão Grande, que causou dezenas de mortos e dezenas de feridos (Foto: Lusa)

16 junho 2017

Castelo Novo, Fundão

(Foto: sacavem)

— Mas que raio! Toda a gente que vem a Castelo Novo me pergunta pela lagariça! Aquilo não tem nada que ver!

Assim exclamou um habitante da vila histórica de Castelo Novo, no concelho do Fundão, quando lhe perguntei onde ficava a lagariça. Enfim, a lagariça pode não ter (quase) nada que ver, mas Castelo Novo tem que ver — e muito —, incluindo a lagariça.

Comecemos pela localização. Aninhada num recôncavo da serra da Gardunha, Castelo Novo apresenta-se-nos como uma acolhedora cascata de casas e outras construções, sobre um fundo constituído por fraguedos da serra, de belíssimo efeito cenográfico. A primeira impressão que Castelo Novo transmite ao visitante não podia ser melhor.


A Torre Sineira, Casa da Câmara, antiga Cadeia, Chafariz de D. João V e Pelourinho (Foto: Aldeias Históricas de Portugal)

A seguir, os monumentos. Não faltam monumentos a merecer a nossa atenção em Castelo Novo. Desde logo, os que se podem ver na praça principal da vila. Vigiados pela torre de menagem do castelo em ruínas (o castelo já foi novo, já, mas isso foi há muitos séculos...), encontram-se a Torre Sineira, a Casa da Câmara (antigos paços do concelho), o Chafariz de D. João V, que lhe fica encostado, e um Pelourinho no meio da praça. Isto dito assim não diz nada, mas no entanto diz muito. Com efeito, encontram-se representados, só nesta praça, três séculos distintos: os séculos XIII, XVI e XVIII.

O castelo deve ser medieval. Foi no séc. XIII que Castelo Novo foi doado à Ordem dos Cavaleiros Templários e, portanto, a construção desta estrutura militar deve datar dessa época, se não for anterior. A Casa da Câmara, incluindo a antiga cadeia, e o Pelourinho datam do reinado de D. Manuel I, que foi quem atribuiu carta de foral à vila. A Torre Sineira data da mesma época. O Chafariz é barroco e data do reinado de D. João V.

Ao contrário do que seria de esperar, a conjugação num espaço tão pequeno de três estilos diferentes e até contrastantes (medieval, manuelino e barroco) produziu um resultado surpreendentemente harmonioso. Aquela pequena praça de Castelo Novo é um exemplo de que é possível combinar estilos diferentes sem agredir a sensibilidade estética de ninguém. Aquela pequena praça de Castelo Novo é uma lição a todos quantos, nos nossos dias, fazem "restauros", "reabilitações" e outros enxertos "a martelo", transformando construções antigas, que eram lindas ou apenas interessantes, em horrorosos mamarrachos. Esses senhores que não sabem combinar estilos diferentes, nem sabem pôr o antigo a dialogar com o moderno, que tratem de ir a Castelo Novo aprender como é que os antigos faziam.


Casa da Família Falcão (Foto: Aldeias Históricas de Portugal)

Depois de se ter admirado a praça principal de Castelo Novo, é altamente recomendável que se dê uma volta pela vila e se admirem as interessantíssimas casas e outras edificações que se encontram a cada passo que se dá. Não é por acaso que Castelo Novo é uma vila histórica. Visite-se, também, a igreja matriz, a da Misericórdia e outros templos que em Castelo Novo existem. Há muito que ver em Castelo Novo e também há muito que beber... mas é água.

Eu se calhar não devia fazer publicidade à água que junto a Castelo Novo se recolhe e se engarrafa, mas ela é tão saborosa que não resisto. Eu não conheço outra água de mesa que seja tão leve e tão fresca como a Água do Alardo. Pronto, está feita a publicidade gratuita.

Então, e a lagariça, de que falei no início? Afinal ela tem ou não tem algo que ver? Tem. A lagariça é um lagar de vinho escavado no granito a céu aberto e situado no meio da povoação. Data do século VII ou do VIII. Além de atestar a antiguidade da ocupação humana no local, a lagariça é um dos testemunhos materiais mais antigos existentes em Portugal da produção de vinho.

Foram os romanos que introduziram, no território que é hoje Portugal, o cultivo da vinha e a produção de vinho a partir da fermentação do mosto. Os habitantes do atual território português anteriores à chegada dos romanos (brácaros, lusitanos, cónios e outras tribos celtas), não conheciam o vinho. Fabricavam cerveja através da fermentação da cevada. A vinha é uma planta mediterrânica, mas a civilização celta era originária da Europa central e não do Mediterrâneo. Por isso, as tribos que aqui habitavam produziam cerveja e não vinho. Se, nos nossos dias, Portugal é um produtor de excelentes vinhos, aos romanos o deve.


A lagariça de Castelo Novo, constituída por duas pias situadas a níveis diferentes. Uma pia maior, situada a um nível superior, onde se pisavam as uvas. Através de um orifício, o mosto resultante da pisa das uvas escorria para uma pia mais pequena, de formato mais ou menos retangular, que se encontra a um nível mais baixo (Foto: Fernando Paulouro das Neves)

13 junho 2017

Partida

Partida, por Cesária Évora

10 junho 2017

Portugal

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava
os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira
Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
Quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera
um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do império
mas a única coisa que consegui apanhar
foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce, ainda mais doce
que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder
nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre
nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho
Que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge de Sousa Braga, poeta português



05 junho 2017

Que mundo queremos construir?

Pajerama, uma curta-metragem brasileira de 2007, com animação de Leonardo Cadaval e Sérgio Minehira, música de Ruggero Ruschioni e realização de Leonardo Cadaval. Este é um filme de animação feita em computador, que retrata o choque de culturas entre a vida na floresta e a do mundo industrializado. O título Pajerama evoca as visões tidas por um pajé, isto é, por um xamã índio

01 junho 2017

Brincando com minas terrestres

Diante de uma parede esburacada pela metralha, crianças de Angola brincam com uma bicicleta cujas rodas são minas terrestres desativadas. Esta fotografia é do tempo da guerra civil angolana ou pouco posterior (Foto: Ricardo Beliel)

29 maio 2017

Fonte da Vila, Castelo de Vide




A Fonte da Vila é o ex-libris de Castelo de Vide e está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1953. Acerca deste fontanário, lê-se na página respetiva da Direção-Geral do Património Cultural:

A Fonte da Vila situa-se sensivelmente ao centro do Largo Dr. José Frederico Laranjo, e constituiu o ponto gerador do sistema urbano radial (em blocos triangulares e em concha) que se observa nas cinco ruas em seu redor; uma das quais aberta na íngreme encosta do castelo onde se situava a Judiaria, nos séculos XIV e XV.

Este caminho, que ligava o Castelo à Fonte da Vila, ou à respectiva nascente que nessa época já era conhecida, foi crescendo progressivamente, ficando ladeado de casas " (...) que acabariam por formar a rua que dela tira o nome" (TRINDADE, Diamantino, 1979, p.80). Rua essa cujo prolongamento termina numa das saídas da Vila, o que leva a Dra. Carmen Balesteros a afirmar que " (...) no Largo funcionou outra estrutura de fecho (da Judiaria) que pode ter incluído no bairro a própria Fonte (...) " (BALESTEROS, OLIVEIRA, 1995, p. 105).

A edificação da Fonte da Vila, como a conhecemos hoje, deverá remontar ao reinado de D. João III. Ainda que no início do século XX haja memória da existência na Fonte de esferas armilares, entretanto desaparecidas (VIDEIRA, César, 1908, p.53), os elementos decorativos aproximam-se da linguagem de pendor classicista difundida no reinado de D. João III.

Por outro lado, a Fonte da Vila é um exemplo reconhecido de micro-arquitectura experimental que, no decorrer das primeira metade do século XVI, contribuiu para a difusão das regras da proporção e simetria e, em última análise, do classicismo.

De forma rectangular, a Fonte apresenta cobertura piramidal, sustentada por seis colunas de mármore. Ao centro do tanque ergue-se um bloco circular de secção elíptica, de onde saem as quatro bicas. É encimado por base de coluna com baixos relevos, rematada por florão em forma de pinha.

A base da coluna apresenta, em duas faces opostas e esculpidas em baixo-relevo, uma figura em genuflexão com os braços abertos, cujos dedos das mãos passam para as outras faces, parecendo segurar os brasões aí representados: um escudo com as armas do concelho (castelo acompanhado por três ramos de videira entrelaçados e três folhas no franco-cantão, cantão e ponta; e em contra-chefe castelo diminuto); e um escudo do mesmo género, com as "Armas de Portugal" mas com as cinco quinas em aspa e bordadura carregada de sete castelos.

Deste monumento faz ainda parte um bebedouro, e um muro que envolve a Fonte e a delimita, acentuando e suportando os vários desníveis do pavimento.


(Foto: Fonte da Vila)

25 maio 2017

Regresso a África



Why I sing the Blues, por BB King (1925–2015), ao vivo em 1974, em Kinshasa, República do Zaire, atual República Democrática do Congo


O blues é um género musical nascido no sul dos Estados Unidos, fruto da fusão de diversos tipos de música, levados para o continente americano pelos escravos capturados em várias partes de África.

Em anos recentes, o blues tem sido associado à música do Sahel e do deserto do Sahara, graças à popularidade conseguida pelo falecido músico maliano Ali Farka Touré e outros. Apesar das semelhanças que possa ter com a música das regiões desérticas e semidesérticas do Sahara e do Sahel, na realidade o blues tem as suas raízes em toda a África e não só nas regiões referidas.

Milhares e milhares de escravos foram levados do Congo para a América ao longo de vários séculos. Não admira por isso que o concerto que BB King deu em 1974 na cidade de Kinshasa tenha sido, de certa forma, um regresso às origens da música afro-americana como um todo, do blues em particular e de BB King pessoalmente.

À data em que ocorreu este concerto de BB King em Kinshasa, perante uma multidão de 80 000 pessoas, eu encontrava-me em Portugal, mas três meses antes eu estava a cerca de 200 quilómetros do local onde ele se realizou. De qualquer modo, não poderia nunca assistir ao espetáculo.

22 maio 2017

Poema à mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade (1923–2005)


19 maio 2017

Parigi, o cara


Parigi, o cara, dueto do último ato da ópera La Traviatta, de Guiseppe Verdi (1813–1901), pelo tenor angolano Emanuel Mendes e a soprano cubana Yilam Sartorio, do Teatro Lírico Nacional de Cuba


Emanuel Mendes é um cantor de ópera angolano, que tem a voz de tenor e se formou em canto lírico em Cuba. Tem vindo a fazer uma carreira promissora, atuando em vários países e ganhando diversos prémios. Ultimamente tem estado em residência artística em Oldenburg, Alemanha.

Neste dueto, intitulado "Parigi, o cara", Emanuel Mendes contracena com a cubana Yilam Sartorio, no úlitmo ato da ópera La Traviatta, de Verdi, quando Violetta e Alfredo se encontram depois de uma longa separação. Este é um dueto que requer uma contida emoção, sem excessivos arroubos.

12 maio 2017

Crianças indígenas do Brasil


«O melhor do mundo são as crianças», escreveu Fernando Pessoa no seu famoso poema "Liberdade". Serão poucos, por certo, os que porão em dúvida esta afirmação do grande poeta. Com a sua pureza, a sua frescura e a sua ingenuidade, as crianças são, de facto, o melhor do mundo, qualquer que seja a sua cor, origem geográfica, etnia, etc.

Encontram-se aqui reunidas várias imagens de crianças índias brasileiras, que eu recolhi aqui e ali por essa internet fora. São imagens de curumins (meninos) e cunhatãs (meninas), pertencentes a diversas etnias indígenas do Brasil: Kamayurá, Pataxó, Ashaninka, Yanomami, Mebengokre, Arawetê, etc. São imagens de crianças que merecem ter um futuro radioso e em paz, como todas as crianças do mundo. Assim os adultos o permitam.


(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Ipojucan Ludwig)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Maria Rachel C. Pereira)

(Foto: Ruriana Alves Brás)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: D' Jerá Sirlene)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Instituto Socioambiental)

(Foto de autor desconhecido)